Notícias › 09/05/2017

Formação Vocacional: tempo que necessita de tempo…

Atualmente trabalho no noviciado franciscano, a etapa formativa em que o candidato recebe o hábito de frade, a corda sem os nós, e o título-missão de frei. É aqui que o jovem começa sua Vida Religiosa Consagrada como Frade Menor Franciscano.

Nossa casa se localiza numa fazenda. Aqui fazemos a experiência do mundo agrícola. Nossa horta, não muito grande, é um pedacinho de nossa dinâmica de trabalho. Lá existe um canteiro inculto. Isso mesmo: no meu canteiro há um espaço para o alecrim, hortelã, alho poró, capim santo, mastruz, e algum tipo de mato, um pequeno pé de goiaba, tudo ocupando o mesmo espaço.

Nele vejo diversidade de cores, de insetos, abelhas, e a fortaleza de raízes. O pé de alecrim está bem crescido. Gosto muito deste canteiro, pois ele me lembra o ensinamento da “Parábola do grão de mostarda” (Mt. 13, 31 – 32): o pequeno espaço da horta, de acordo com a Parábola, une a diversidade: “a semente e as aves do céu”. Quem semeia a Terra sabe quão bonito é acolher os pássaros, em especial no fim de tarde ou pela manhãzinha; mas, também sabe que os pássaros se alimentam de sementes e plantas. Daí o risco.

Gosto de olhar meus canteiros. Agora este em especial me lembra a Vocação para o Reino de Deus: há de ser vocação para a “comunhão, para a união em torno de uma mesa comum” (Crossan, 1.994); há de ser vocação que compreenda e acolha a diversidade protegendo-a. Há de ser vocação capaz de incluir o outro no Plano de Deus.

Meu canteiro, como os demais, se permitiu as podas necessárias para seu crescimento na pluralidade. E ele me ensinou muito que também nós devemos aceitar a nos educar na e para a convivência plural, sobretudo, em dois quesitos básicos: ”liberdade, e responsabilidade” (Artigo 5, Constituição Federal, 1988).

Liberdade de crescermos em várias dimensões da vida, e Deus não nos quer subjugados e nem desfavorecidos. Liberdade de nos fazer gente. Porém, a liberdade requer responsabilidade vocacional de cuidar da vida. Da minha vida, da vida do outro, e da vida do cosmos. A liberdade de ir e vir, não isenta-nos de responder por nossos atos que praticamos por onde passamos. A liberdade de expressão não nos isenta de responder por aquilo que falamos.

As raízes do meu canteiro ocupam um espaço muito delimitado, e elas se dão muito bem. E me ensinam, a cada dia, que devo respeitar as raízes humanas, existenciais e profissionais de outras pessoas que convivem comigo, delimitando bem o meu, o seu, o nosso espaço. No grupo de Apóstolos, entre os doze, ninguém era igual ao outro. São Francisco de Assis ensinou-me a acolher as pessoas, inclusive sendo estas de outras religiões.

Formar este canteiro levou um certo tempo… Formar para a Vocação madura, capaz de conviver e acolher as diferenças que existem no outro, leva tempo…Tenho insistido muito por onde passo que precisamos nós educadores, pais, escola, igreja, escolinhas esportivas, enfim, cada um envolvido na ação educativa ocorrendo esta no espaço da educação formal, não-formal, ou informal, falarmos de educar-nos para viver bem nossa vocação, “na liberdade, com amor, para a transcendência” (Cencini,1994), promovendo o bem, a paz e a dignidade humana. Frei Ronildo Arruda, ofm.

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