Notícias › 09/08/2017

Mensagem do Ministro Geral (Festa de Santa Clara)

Frei Michael Anthony Perry, ofm
Ministro Geral e Servo

Queridas Irmãs, o Senhor lhes dê a sua paz!

A festa solene da mãe Santa Clara me oferece uma ocasião para refletir com vocês sobre algumas questões que hoje interpelam a nossa vida e a nosso seguimento do Senhor Jesus Cristo. A complexidade do nosso tempo requer o saber ler em profundidade os acontecimentos e nos desafia para encontrarmos modalidades novas para viver com fidelidade o nosso carisma e para caminhar próximos aos homens e mulheres de hoje, oferecendo-lhes uma palavra de esperança e de misericórdia. Nos deparamos com cenários de crise em vários níveis, desde o âmbito social até o individual. Nós também não ficamos imunes a estas fatigas que atingem nossa vida e a vida de nossas fraternidades.

O Senhor nos dê a sabedoria para ver estas crises como oportunidades. Queremos então colocarmo-nos juntos em escuta, deixando-nos provocar pela Sagrada Escritura e pelo testemunho de Clara de Assis.

Clare_090817-500Nós, Frades Menores, encontramos os temas que o Conselho Plenário da Ordem deverá enfrentar no próximo ano, focalizando o caminho sobre três palavras emblemáticas: escutar, discernir e agir. Acredito que possam ser palavras significativas também para vocês, queridas Irmãs, que hoje são chamadas a enfrentar novos desafios, a responder as demandas que nos provocam e interpelam e a atravessar toda essa complexidade mantendo-se fiéis à intuição evangélica da mãe Santa Clara.

ESCUTAR

O convite para escutar retorna continuamente na Bíblia: o homem crente é aquele que sabe escutar, que percebe a voz de Deus e que decide livremente responder com um consenso. O livro dos Atos dos Apóstolos narra alguns episódios muito eloquentes sobre o comportamento de escuta exercido pelas primeiras comunidades cristãs. Emblemático é o exemplo dos discípulos, que foram impedidos pelo Espírito Santo de anunciar a Palavra na Ásia e exortados em visão para irem para a Macedônia (cf. At 16,6-10). A Palavra de Deus orienta e o seu Espírito conduz, falando através da vida, dos acontecimentos, das circunstâncias e através das intuições do coração.

Clara também soube viver em uma constante atitude de escuta, como o testemunham as irmãs. Escuta de Deus no silêncio e na oração incessante; escuta primorosa das irmãs, de quem percebe inclusive as necessidades não expressas, conhecendo “por espírito” o sofrimento e o desespero (cf. Proc 2,23); escuta participante do temor dos concidadãos diante da invasão dos inimigos (cf. Proc 3,19).

A escuta de vocês seja uma escuta atenta e livre, praticada no silêncio da relação pessoal com Deus e na partilha com as irmãs, colocando-se juntas ao redor da Palavra e confrontando entre vocês sobre o que acontece ao redor. Seja uma escuta vigilante, aberta, sem ideias preconcebidas; seja uma escuta ativa, sábia e inteligente, que sabe perscrutar sob as aparências; seja uma escuta empática, apaixonada, participada. A escuta daquilo que o Espírito quer nos sugerir hoje, agindo silenciosamente na vida cotidiana, pressupõe a consciência da própria identidade e a disponibilidade de continuar no caminho do êxodo, orientados pela promessa que Deus renova para nós. A escuta não nos mantém parados. Às vezes nos incomoda, nos faz sair de nós mesmos e de nossas seguranças, nos apresenta questões que exigem respostas novas.

DISCERNIR

Se colocar-se na escuta da voz de Deus, na complexidade da realidade de hoje, é o primeiro passo para compreender como devemos responder ao chamado e como orientar-nos no caminho, depois abre-se todo o espaço para o discernimento. Aquela voz e os sinais que colhemos no desprender-se da história devem ser interpretados, discutidos e compreendidos em sua autenticidade. O discernimento é tão necessário e urgente quanto delicado. Não é por acaso que o Papa Francisco continua indicando-nos este processo como espaço a ser ocupado com paciência e perseverança.

As primeiras comunidades cristãs ainda nos ensinam a atitude de diálogo recíproco, da leitura da Palavra e da troca de ideias entre os irmãos, da oração e da disponibilidade de colocar-se em diálogo na busca do bem comum. O conhecimento do dom do Espírito e da sua graça operante, o reunir-se juntos para enfrentar um desafio, uma comunicação clara e sincera, a confiança recíproca, a leitura sábia e real e uma escuta atenta da Escritura foram para eles a base sobre a qual realiza-se o discernimento, até chegar à decisão em assembleia que resolve o conflito, que promove a liberdade e a responsabilidade, que provoca alegria e que encoraja os irmãos (cf. At 15,1-35).

Em sua existência, Clara também encontrou-se na necessidade de realizar discernimentos delicados e decisivos. Pensemos na discussão franca e construtiva que aconteceu com o Cardeal Ugo, depois com o Papa Gregório IX, sobre a originalidade da forma de vida da comunidade de São Damião em relação à instituição eclesiástica. Em jogo não estava só uma convicção pessoal de Clara, mas a consciência de que tratava-se de salvaguardar o dom de uma vocação recebida do Pai das misericórdias (cf. TestC 2). Tal consciência era nutrida pela oração numa relação constante com o Pai, na adesão ao Cristo pobre, na união com o Espírito Santo. A oração para Clara não foi um espaço fechado, mas soube alargar-se, deixando-se atravessar pela paixão e pela caridade sem medida de Cristo. Exatamente por isso, a realidade concreta foi para ela um lugar no qual pode conhecer e fazer a vontade de Deus. As necessidades das irmãs, as fragilidades experimentadas em si mesma e nas outras, as fatigas e as tentações não eram vistas como obstáculos, mas como ocasiões através das quais o carisma da contemplação podia entrelaçar-se com aquele da caridade em um discernimento realizado juntas.

A Regra (cf. RSC 4,15-18) recorda a importância do Capítulo semanal, do buscar juntas o modo com o qual viver em plenitude a própria vocação, na realidade concreta, cotidiana, que é espaço possível no qual dar os passos do seguimento.

Vocês também, Irmãs, são chamadas a realizar discernimentos. A realidade de hoje amplia os interrogativos profundos sobre o sentido da vida. Em um tempo diferenciado pela velocidade, pelo barulho, pelas informações instantâneas e globais, pela presença da mídia digital e social que está incidindo com mudanças a nível antropológico, o que podemos dizer da dimensão do silêncio e da contemplação inerentes à vida de vocês? Em um mundo caracterizado pela  fragmentação, pela “setorialidade”, pelos particularismos, pelas divisões e junto com uma tendência de uniformização e de homogeneização, o que pode oferecer a vida de vocês chamada à unidade na diversidade seja na dimensão pessoal como naquela fraterna? Quais respostas encontrar, como dialogar de modo que cresçam juntas, fazendo em modo tal que a autonomia dos mosteiros não se torne um muro para proteger a própria subsistência, mas seja acima de tudo uma riqueza a ser oferecida para o discernimento comum?

Estes são alguns interrogativos que, acredito, atravessam as comunidades de vocês e que devem ser refletidos com paixão, convicção e esperança, na confiança de que somos conduzidos pelo Espírito.

AGIR

Escutar, discernir e, finalmente, agir. Um agir que, fortalecido por uma escuta profunda e inteligente e por um discernimento sério e aberto, tenha a coragem e a audácia de gestos de vida e que seja grávido de profecia, como aquele de Pedro, de Tiago e de Paulo que souberam conduzir a Igreja para abrir-se rumo ao novo, estendendo-se aos pagãos (cf. At 15,1-35).

Um agir livre e fecundo de misericórdia, como aquele de Clara que não hesita em cobrir com o próprio corpo o quadril dolorido da irmã e em tirar o véu para poder aquecê-la, colocando-se em jogo na própria identidade de mulher e de irmã pobre (cf. Proc 7,12); um agir rico da coragem de quem sabe impulsionar-se além e rumo à plenitude do dom de si na disponibilidade ao martírio, que leva Clara a querer partir para Marrocos (cf. Proc 6,6).

O agir de vocês seja corajoso também, Irmãs! Conscientes dos desafios, com o olhar vigilante de quem se abre para o futuro com esperança, fiéis e estáveis na vocação recebida, tenham a coragem de ousar gestos proféticos de vida. Às vezes acontece de constatar que as mudanças na comunidade acontecem porque de alguma forma são obrigadas pela vida. As situações que se criam, impedindo a continuidade, impõem decisões e resoluções mais ou menos pensadas e eficazes. Me pergunto e pergunto a vocês se é inevitável que seja assim. Ou se não é possível, ao invés, escolher a mudança a partir das motivações, das convicções amadurecidas juntas, da busca do bem e da vida; com coragem e confiança, aceitando o desafio, dispostas a perder alguma coisa para que a vida possa continuar a florescer em plenitude. Muitas fraternidades vivem uma realidade com muitas irmãs idosas e com fragilidade que interroga sobre o futuro; algumas encontram-se inseridas em contextos difíceis e sentem-se chamadas a uma forma nova de partilha e de proximidade com os irmãos; o âmbito da formação apresenta a exigência de aprender modalidades e linguagens novas para compreender as mudanças antropológicas e para permanecer em um diálogo positivo e significativo com o homem de hoje; a chegada de jovens traz a necessidade de um discernimento atento e de um acompanhamento sábio. A própria estrutura da forma de vida de vocês e dos mosteiros é interpelada quando os recursos para a autonomia que se tem correm o risco de tornarem-se escassos demais e quando a comunhão torna-se o caminho possível e belo de ser percorrido para responder juntas a um chamado à vida em plenitude que continua sendo-nos entregue e para continuar confiando na promessa de Deus. Como é bonito quando se tem a liberdade de escolhas conscientes, partilhadas, que ousam sair da práxis de sempre e propor um caminho novo para promover a vida, na fidelidade ao Evangelho e às dimensões constitutivas da identidade de vocês: a pobreza e a fraternidade, entregues a nós como herança por Clara e Francisco!

Confio à oração de cada uma de vocês o caminho dos irmãos franciscanos no mesmo caminho de escuta, discernimento e ação.

O Pai das misericórdias abençoe cada uma de vocês e cada fraternidade e a mãe Santa Clara acompanhe o caminho de vocês.

Feliz Festa de Santa Clara!

Roma, 2 de agosto de 2017
Festa do Perdão de Assis

Imagem:  “Francisco y Clara peregrinos de la Laudato si’” di Juan Rendón Herrera, OFM.

Fonte: franciscanos.org.br

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