Província do Santíssimo Nome de Jesus

Notícias › 27/09/2025

Setembro Amarelo – A fé que sustenta e dá sentido à vida

Por: Frei Ronildo Arruda, OFM

“Tio, compra uma paçoquinha de mim.” Olhei aquele garoto franzino, chinela havaiana nos pés, rosto lavado pelo sol causticante, sorriso e alegria nos lábios. Perguntei o Bairro onde ele morava, e se ele estava estudando. Com facilidade ele declinou rápido o seu endereço, e contente me disse que o dinheiro vindo da venda da paçoquinha era para ele comprar uma chinela nova para ir para o Colégio. O papai estava no trabalho e ele queria lhe ajudar.

“E o menino com o brilho do sol
Na menina dos olhos
Sorri e estende a mão
Entregando o seu coração
E eu entrego o meu coração..”

O sol causticante do meio da tarde banhando meu rosto, queimando meus pensamentos enquanto eu rumava para meu trabalho nas emissoras de Rádio da Fundação Frei João Batista Vogel – Anápolis. E aí fiquei pensando nessa música “de volta ao começo” composta por Gonzaguinha, e me lembrando do garoto, feliz e contente por ajudar seu papai. Felicidade: fé que sustenta e dá sentido à vida.

Ruas, rodoviárias, aeroportos, estradas, pátio de escola e universidades, bares, cemitérios, shoppings são sinônimos de chagada e partida, de começos de amizades e de despedidas, de sonhos, de desilusões, de começos ou recomeços. Milton Nascimento magistralmente sintetiza essa ideia na música “encontros e despedidas”:

“O trem que chega é o mesmo trem da partida

A hora do encontro é o mesmo da despedida”

Às vezes as ideias sagradas se escondem na poesia, pois somos seres que, embora grupais, nascemos, evoluímos, envelhecemos na solidão do constituir-se sozinhos, não na solidão individualista, mas na solitariedade da individuação.  Despedimo-nos dos amigos, da família, de objetivos significativos para nós, pois precisamos caminhar, crescer, evoluir.  “Encontros e despedidas” exigem de nós uma humanidade ímpar. E só quem se despediu verdadeiramente é que sabe sabor das lágrimas muitas vezes não caídas, e se descidas nas faces, escorreram num canto reservado, pois nos foi ensinado, sobretudo aos meninos, não chorar.

O otimismo exagerado pode ser tão cruel como a brutalidade da criação dos meninos nos idos da década de 1960, 1970, 1980… “menino não chora”. Só que hoje o otimismo exacerbado atinge também as meninas: é a alegria de seguidores mil das redes sociais, das amizades das mídias não humanas reais. O ser humano, no seu natural, precisa do convívio, do toque humano, do convívio com o outro.

A tristeza profunda pode ter seus inícios em não observarmos para onde permitimos que caminhem nossos sentimentos, pensamentos e comportamentos. Nessa distração, não raro, caímos no abuso de tantas coisas: álcool, internet profunda, drogas, abandono de nós mesmos, e deparamo-nos com a violência seja psicológica, social, dos afetos, físicas. Nasce, então, o desespero, e aí a perca da fé. Fé no sagrado, fé em nós mesmos, fé em nossos sonhos.

“Deus nos dá pessoas e coisas,
para aprendermos a alegria…
Depois, retoma coisas e pessoas
para ver se já somos capazes da alegria
sozinhos…
Essa… a alegria que ele quer”

A poesia acima de João Guimarães Rosa nos fala da maturidade que devemos aprender ao longo da vida onde alegria fortifica a fé, e dá sentido à vida. A Rua Barão do Rio Branco – Anápolis ia se afunilando, e eu pensava nisso tudo diante do sorriso daquele menino sonhando, crendo, tendo fé que as paçoquinhas não só realizariam seu sonho, mas fortalecia o vínculo com seu papai. As distâncias falam da confiança, do acreditar, do sonhar juntos.

A perda do sentido da vida, e o desejo de por limite a dor, existe e é real. Mas, quando alguém põe limite radical à dor seu desejo maior é viver, porém, não sabe expressar-se, sua luta se torna ineficaz. Por isso, na alegria, ou na dor precisamos “proximidade, percepção, escuta atenta, acolhida ao outro” como tanto insistiu pastoralmente nosso querido Papa Francisco.

Cuidar da vida é prevenir situações, é escutar não só o silêncio das pessoas, como também sim percebermos os momentos em que as pessoas são silenciadas em seus sonhos, projetos, suas ideias, suas falas. As piadas, as risadas de inferiorização, os nãos de incapacitação conduzem as pessoas ao desespero e ao desistir de si mesmas.  Amai-vos” nos ensina Jesus. Toda expressão de amor, nos lembra o psicólogo Rossandro Klinjey, começa com o respeito. E eu diria mais: com a gentileza, a cordialidade, a humildade de ouvir e ser ouvido, de perdoar, de acolher e sentir-se acolhido, como nos ensina São Francisco e Santa Clara de Assis. A fé que sustenta e dá sentido à vida e elimina os pensamentos limitantes da dor e da perda de sentido da vida começa com pequenos gestos de humanizar-nos sempre demonstrando que não somos super-heróis, mas pessoas capazes de chorar e sorrir, viver.

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