Província do Santíssimo Nome de Jesus

Notícias › 19/11/2025

Memória – Especial Dia da Consciência Negra

“Fulano é negro, mas…”

“Fulano é negro, e trabalha tão bem…”

“Ele é preto de alma branca…”

Acima frases coletadas da coletividade que pensa que inclui.

Nesse ano que celebramos 150 anos do livro Escrava Isaura, de autoria de Bernardo Guimarães, e 75 anos de Sinhá Moça, de autoria de Maria Dezonne Pacheco Fernandes, e também quando celebramos Benjamin de Oliveira (1870), o primeiro palhaço negro do Brasil, ou quando ouvimos música de Tião Carreiro, Zezé Mota, Xande Pilares, Sandra de Sá é espantoso ouvirmos frases que se quebram e se ligam pela conjunção adversativa conectiva mas, para se referir a pessoa preta, negra.

O mas tem história no Brasil, e começou de maneira silenciosa no final do século XIX e início do século XX quando da tentativa frustrada de setores da elite brasileira, a mesma que luta por se manter no poder ainda hoje, impulsionando as migrações europeias para que os europeus assumissem serviços aqui, no Brasil, pudessem também clarear a população.

Esse clareamento esconderia assim três faltas graves dessa elite naquele momento de fim da escravatura negreira (e indígena) no País: primeira falta grave: a preguiça e o ódio da casa grande em desfavor do mocambo; segunda falta grave: o branco engravidar a negra e não assumir a criança gerando o mulato que, mais tarde seria empurrado para a periferia gerando a terceira falta grave: a marginalização e a exclusão do negro, mulato, pobre, desempregado.

Laurentino Gomes, na monumental obra 1808, 1822, 1889 cita “os negros tigre de listra”. Em uma superficial explicação eram os negros que carregavam os tambores de dejetos humanos até o córrego. Os dejetos respingavam no corpo da pessoa e ficava a marca ressecada, daí o nome. Portanto, toda sorte de tortura, humilhação, diminuição os negros aqui passaram para construir o País, e, depois da abolição, essas pessoas foram marginalizadas, empurradas para o nada.

Precisamos não esquecer esses fatos para que eles não se repitam, pois no hodierno existem pessoas que não aceitam conviver seja com o negro, seja com pessoas de orientação sexual diferente, seja com o pobre. Veja bem que há discursos de político que diz “que o negro deve ser pesado por arroba”; existe discurso político muito atual dizendo “que diploma vale cada vez menos” insistindo assim em menos educação, menos pesquisa, portanto, menos possibilidades para as futuras gerações.

Esses discursos perigosos estão ligados intimamente com a teologia da batalha espiritual onde o demônio está no outro, e à teologia do domínio onde um grupo minoritário e autoritário faz uma releitura de trechos específicos da Bíblica produzindo uma bem camuflada ideologia do poder que deseja submeter os outros a ele, eliminando pesquisadores (escolas e universidades para todos) que pensam diferente, eliminando outros credos (principalmente de matriz africana) que rezam diferente, eliminando movimentos das minorias (feministas, LGBTQIAP+, trabalhadores organizados em associações) que constroem políticas públicas e de organização diferentes. E mais, esse grupo elitizado tem um alto grau de poder de desprezar, marginalizar, xingar e esbravejar contra os outros utilizando-se de mídias e de Deus, com estratégica emocional e de dogmas tradicionais da estrutura do País, em especial a que foi enfiada na cabeça do povo: família (pai, mãe, filhos).

Nesse dia 20 de novembro, dia de celebrarmos a Consciência Negra, devemos ir mais além: vamos celebrar nossas ancestralidades, vamos tomar consciência do que nos afeta a partir do voto, por exemplo, por tanto tempo negado às mulheres, aos analfabetos, aos excluídos. Vamos pensar na conjunção adversativa conectiva mas não aceitando-a ser aplicada às futuras gerações. Vamos celebrar Nossa Senhora Aparecida não como padroeira do Brasil (padroeira vem de pai), vamos celebrá-la como matrona, como mulher de afeto maternal. Vamos respeitar os tambores dos terreiros, os berimbaus da capoeira, as guias das rodas de gira, e vamos lembrar das pias batismais, dos altares erguidos nos cantos e recantos do nosso povo, a mesa de Kardec, a dança cigana, o axé do Olodum, a bonita miscigenação do nosso povo.

E vamos lembrar de duetos tão lindos como Milton nascimento e Lô Borges, Inácia e José Inocêncio (novela Renascer), Zezé Motta e Fauzi Arap, São Benedito Mouro e São Francisco de Assis, João Paulo e Daniel e vamos mostra-los às futuras gerações para que aprendam “aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser” juntas como ensina-nos Jacques Delors, em Educação um Tesouro a Descobrir, sabendo nós que  a educação, a cultura, a fé, a música são caminhos para inclusão, para socialização, para respeitabilidade e fraternidade universal como nos inspirou nosso querido Papa Francisco.

 

Frei Ronildo Arruda, ofm.

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